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domingo, dezembro 08, 2013

LIMA BARRETO... TÃO ATUAL!!!

Lima Barreto

Certas manhãs quando desço de bonde para o centro da cidade, naquelas manhãs em que, no dizer do poeta, um arcanjo se levanta de dentro de nós; quando desço do subúrbio em que resido há quinze anos, vou vendo pelo longo caminho de mais de dez quilômetros, as escolas públicas povoadas.
Em algumas, ainda surpreendo as crianças entrando e se espalhando pelos jardins à espera do começo das aulas, em outras, porém, elas já estão abancadas e debruçadas sobre aqueles livros que meus olhos não mais folhearão, nem mesmo para seguir as lições de meus filhos. Brás Cubas não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria; eu, porém, a transmitiria de bom grado.
Vendo todo o dia, ou quase, esse espetáculo curioso e sugestivo da vida da cidade, sempre me hei de lembrar da quantidade das meninas que, anualmente, disputam a entrada na Escola Normal desta idade; e eu, que estou sempre disposto a troçar as pretensões feministas, fico interessado em achar no meu espírito uma solução que satisfizesse o afã do milheiro dessas candidatas a tal matricula, procurando com isso aprender para ensinar, o quê? O curso primário, as primeiras letras a meninas e meninos pobres, no que vão gastar a sua mocidade, a sua saúde e fanar a sua beleza. Dolorosa coisa para uma moça...
A obscuridade da missão e a abnegação que ela exige, cercam essas moças de um halo de heroísmo, de grandeza, de virtudes que me faz naquelas manhãs em que sinto o arcanjo dentro da minha alma, cobrir todas elas da mais viva e extremada simpatia. Eu me lembro também da minha primeira década de vida, de meu primeiro colégio público municipal na rua do Resende, das suas duas salas de aula, daquelas grandes e pesadas carteiras do tempo e, sobretudo, da minha professora - Dona Teresa Pimentel do Amaral - de quem, talvez se a desgraça, um dia, enfraquecer-me a memória não me esqueça de todo.
De todos os professores que eu tive, houve cinco que me impressionaram muito; mas é, dela que guardo mais forte impressão.
O doutor (assim o tratávamos) Frutuoso da Costa, um deles, era um preto mineiro, que estudara para padre e não chegara a ordenar-se. Tudo nele era desgosto, amargor; e, as vezes, deixávamos de analisar a Seleção, para ouvirmos de sua feia boca histórias polvilhadas dos mais atrozes sarcasmos. Os seus olhos inteligentes luziam debaixo do pince-nez e o seu sorriso de remoque mostrava os seus dentes de marfim de um modo que não me atrevo a. qualificar. O seu enterro saiu de uma quase estalagem.
Um outro foi o Senhor Francisco Varela, homem de muito mérito e inteligente, que me ensinou História Geral e do Brasil. Tenho uma notícia de polícia que cortei de um velho Jornal do Comércio de 1878. Desenvolvida com a habilidade e o savoirfaire daqueles tempos, contava como foi preso um sujeito por trazer consigo quatro canivetes. "Explorava-a", como diz hoje nos jornais, criteriosamente o redator dizendo que “ordinariamente basta que um homem traga consigo uma única arma qualquer para que a polícia ache logo que deve chamá-lo a contas". Isto era naquele tempo e na Corte, pois o professor Chico Varela usava impunemente não sei quantos canivetes, quantos punhais, revólveres; e, um dia, apareceu-nos com uma carabina. Era no tempo da Revolta. Gabava-se, no que tinha muita razão, de ser parente de Fagundes Varela; mas sempre citava a famosa metáfora de Castro Alves, como sendo das mais belas que conhecia: “Qual Prometeu tu me amarraste um dia"...
Era um belo homem e, se ele ler isto, não me leve a mal. Recordações de menino...
Foi ele quem me narrou a lenda dos começos da guerra de Tróia, que, como sei hoje, é da autoria de um tal Estásinos de Chipre. Parece que é fragmento de um poema deste, conservado não sei em que outro livro antigo. O filho do rei de Tróia, Páris, foi chamado a julgar uma contenda entre deusas, Vênus, Minerva e Juno.
Houvera um banquete no céu e a Discórdia, que não havia sido convidada, para vingar-se, atirou um pomo de ouro, com a inscrição – “À mais bela". Páris, chamado a julgar quem merecia o prêmio, entre as três, hesitou. Minerva prometia-lhe a sabedoria e a coragem; Juno, o poder real e Vênus... a mulher mais bela do mundo.
Aí, ele não teve dúvidas: deu o “pomo" à Vênus. Encontrou-se com Helena, que era mulher do rei Menelau, fugiu com ela; e a promessa de Afrodite foi cumprida. Menelau não quis aceitar esse rapto e declarou guerra com uma porção de outros reis à Tróia. Essa história é da mitologia; pois hoje me parece do catecismo. Naqueles dias, ela me encantou e fui da opinião do troiano; atualmente, porém, não sei como julgaria, mas certo não desencadearia uma guerra por tão pouca coisa.
Varela contava tudo isto com uma eloqüência cheia e entusiasmo, de transbordante paixão; e, ao me lembrar ele, comparo-o sempre com o doutor Ortiz Monteiro, que foi meu lente, sempre calmo, metódico, não perdendo nunca um minuto para não interromper a exposição da sua geometria descritiva. A sua pontualidade e o seu amor em ensinar a sua disciplina faziam-no uma exceção no nosso meio, onde os professores cuidam pouco nas suas cadeiras, para se ocuparem de todo outro qualquer afazer.
De todos eu queria também falar da Senhor Oto de Alencar, mas que posso eu dizer da sua cultura geral e profunda, da natureza tão diferente da sua inteligência da nossa inteligência, em geral? Ele tinha alguma coisa daqueles grandes geômetras franceses que vêm de Descartes, passam por d'Alembert e Condorcet, chegam até nossos dias em Bertrand e Poincaré. Podia tocar em tudo e tudo receberia a marca indelével do seu gênio. Entre nós, há muitos que sabem; mas não são sábios. Oto, sem eiva de pedantismo ou de insuficiência presumida, era um gênio universal, em cuja inteligência a total representação científica do mundo tinha lhe dado, não só a acelerada ânsia de mais, saber, mas também a certeza de que nunca conseguiremos sobrepor ao universo as leis que supomos eternas e infalíveis. A nossa ciência não é nem mesmo uma aproximação; é uma representação do Universo peculiar a nós e que, talvez, não sirva para as formigas ou gafanhotos. Ela não é uma deusa que possa gerar inquisidores de escalpelo e microscópio, pois devemos sempre julgá-la com a cartesiana dúvida permanente. Não podemos oprimir em seu nome.
Foi o homem mais inteligente que conheci e o mais honesto de inteligência.
Mas, de todos, de quem mais me lembro, é de minha professora primária, não direi do "a-b-c", porque o aprendi em casa, com minha mãe, que me morreu aos sete anos.
É com essas recordações em torno das quais esvoaçam tantos sonhos mortos e tantas esperanças por realizar, que vejo crepitar esse matutino movimento escolar; e penso nas mil e tantas meninas que todos os anos acodem ao concurso de admissão à Escola Normal.
Tudo têm os sábios da Prefeitura imaginado no intuito de dificultar a entrada. Creio mesmo que já se exigiu Geometria Analítica e Cálculo Diferencial, para crianças de doze a quinze anos; mas nenhum deles se lembrou da medida mais simples. Se as moças residentes no Município do Rio de Janeiro mostram de tal forma vontade de aprender, de completar o seu curso primário com um secundário e profissional o governo só deve e tem a fazer uma coisa: aumentar o número das escolas de quantas houver necessidade.
Dizem, porém, que a municipalidade não tem necessidade de tantas professoras, para admitir cerca de mil candidatas a tais cargos, a despesa, etc. Não há razão para tal objeção, pois o dever de todo governo é facilitar a instrução dos seus súditos.
Todas as mil que se matriculassem, o prefeito não ficava na obrigação de fazê-las professoras ou adjuntas. Educá-las-ia só se estabelecesse um processo de escolha para sua nomeação, depois que completassem o curso.
As que não fossem escolhidas, poderiam procurar o professorado particular e, mesmo como mães, a sua instrução seria utilíssima.
Verdadeiramente, não há estabelecimentos públicos destinados ao ensino secundário às moças. O governo federal não tem nenhum, apesar da Constituição impor-lhe o dever de prover essa espécie de ensino no Distrito. Ele julga, porém, que só são os homens que necessitam dele; e mesmo os rapazes, ele o faz com estabelecimentos fechados, para onde se entra à custa de muitos empenhos.
A despesa que ele tem, com os Ginásios e o Colégio Militar bem empregada daria para maior número de externatos, de liceus. Além de um internato no Colégio Militar do Rio, tem outro em Barbacena, outro em Porto Alegre, e não sei se projetam mais alguns por aí.
Onde ele não tem obrigação de ministrar o ensino secundário, ministra; mas aqui, onde ele é obrigado, constitucionalmente, deixa milhares de moças a impetrar a benevolência do governo municipal.
A municipalidade do Rio de Janeiro que rende cerca de quarenta mil contos ou mais, podia ter há muito tempo resolvido esse caso; mas a política que domina a nossa edilidade não é aquela que Bossuet definiu. A nossa tem por fim fazer a vida incômoda e os povos infelizes; e os seus partidos têm por programa um único: não fazer nada de útil.
Diante desse espetáculo de mil e tantas meninas que querem aprender alguma coisa, batem à porta da Municipalidade e ela as repele em massa, admiro que os senhores que entendem de instrução pública, não digam alguma coisa a respeito.
E creio que não é fato insignificante; e, por mais que fosse e capaz de causar prazer ou dor à mais humilde criatura, não seria demasiado insignificante para não merecer a atenção do filósofo. Creio ser de Bacon essa observação.
O remédio que julgo tão simples, pode não sê-lo; mas, espero despertar a atenção dos entendidos e serão eles capazes de achar um bem melhor. Ficarei muito contente e tenho esperança que tal se dê.
Bagatelas, 3-5-1918
Fonte: www.biblio.com.br

domingo, novembro 03, 2013

RUMO A UMA NOVA SEMANA... QUE VENHA A SEGUNDA-FEIRA!!!

É isso! Vamos depositar na segunda-feira as esperanças renovadas em uma nova semana que se inicia... Renovar o novo... Investir no novo... Recriar o novo... Que Deus abençoe a nossa (nova) caminhada rumo a uma nova semana do mês de novembro!!

CONVITE: LANÇAMENTO DO LIVRO "DIFERENTES LINGUAGENS NO CONTEXTO ESCOLAR"

Parabéns, Elaine Assolini!!!!

Obrigada por me enviar o convite, obrigada pelo carinho, pela lembrança!
Que Deus a abençoe sempre (você merece tudo de melhor)!!!
Sucesso!!!
Um grande abraço!!!


EE DO JARDIM SOUZA LIMA: EDUCAÇÃO FÍSICA EM DESTAQUE

É a Educação Física na EE do Jardim Souza Lima se destacando com a Profa. Lara Graziadei e seus alunos. Parabéns, professora!!! Parabéns, alunos!!! Que a nossa escola continue a brilhar, sempre, por meio do trabalho e competência dos nossos professores bem como do talento e garra dos nossos alunos!!! Um grande abraço a todos!!! E vamos comemorar!!!!














CONCURSO DE REDAÇÃO E DESENHO - ABRACOPEL

Parabéns, Maxuel (6º ano A)!!! Parabéns, Profa. Iara Bento!!!
Maxuel Ribeiro Ferreira Neves, aluno do 6º ano A da EE do Jardim Souza Lima - Bebedouro - SP.
Segue abaixo e-mail recebido pela EE do Jardim Souza Lima informando o resultado do Concurso Nacional Abracopel de Redação e Desenho:

"Olá Profa. Iara,

Gostaríamos de informá-la que seu aluno Maxuel Ribeiro Ferreira Neves, ficou em terceiro lugar entre mais de 400 alunos inscritos no 2.o Concurso Nacional Abracopel de Redação e Desenho, na categoria Redação 1.
Este ano, iremos presentear os 2.os e 3.os lugares com materiais escolares da Tilibra, avise ao Maxuel que seu prêmio será entregue na escola, bem como um certificado para você professora e para a escola também.
Novamente, parabéns pelo esforço e ano que vem vamos brigar pela vitória?

Link da matéria: Concurso Nacional Abracopel de Redação e Desenho

Grande abraço,

Meire Bindes Martinho
Gerência Executiva"

Leitura do e-mail recebido da Abracopel informando que o aluno ficou em 3º lugar no Concurso de Redação e Desenho.

Profa. Iara Bento e equipe gestora da EE do Jardim Souza Lima: muito felizes com a conquista do aluno Maxuel.
Profa. Iara, Maxuel, Silvana (Profa. Coordenadora) e Maria Clima (Diretora).

Parabéns, profa. Iara pelo trabalho!!! Parabéns, Maxuel, pelo empenho!
Profa. Iara, Maxuel, Eloisa (Profa. Coordenadora) e Maria Clima (Diretora).

sábado, setembro 21, 2013

VIAJANDO NA MÚSICA DE NANDO REIS E ROBERTA CAMPOS - DE JANEIRO A JANEIRO...

21 DE SETEMBRO: DIA DA ÁRVORE

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Fonte: Ensinar & Cia.

CONCURSO CULTURAL EDUCONEX@O 2013: AS CARAS DA EDUCAÇÃO


Prêmios: 

Primeiro lugar - grande prêmio
  • Viagem internacional
    Participação no evento XXI Colóquio – O papel da Educação no Desenvolvimento - Lisboa, Portugal. Dias do evento: 30 e 31 de janeiro e 2 de fevereiro de 2014
  • Duas semanas em Portugal
    De 19 de janeiro a 2 de fevereiro de 2014 Inclusos:
    • Estadia: acomodação em quarto individual em hotel definido pela promotora;
    • Passagem aérea ida e volta - Brasil / Lisboa;
    • Traslados de ida e volta (aeroporto/hotel/aeroporto), no valor de € 100,00;
    • Ajuda alimentação no valor de € 60,00 diária;
    • Disponibilização de verba para passeios culturais;
  • Cursos de Inglês
    Curso de inglês de um ano online EF Englishtown Private Teacher + 48 aulas particulares.

Segundo lugar

  • 01 (um) iPad 
  • 01 (um) curso de inglês de um ano online EF Englishtown Private Teacher + 24 aulas particulares

Terceiro lugar

  • 01 (um) iPad
  • 01 (um) curso de inglês de um ano online EF Englishtown Private Teacher + 12 aulas particulares
Como participar
O Concurso Cultural “Educonex@o 2013 - As Caras da Educação” tem como intuito conhecer e reconhecer os educadores que fazem a diferença na educação brasileira.
Se você é professor da rede pública ou privada, educador de instituto, ONG ou fundação de ensino, conte sua história inspiradora e concorra a uma viagem à Lisboa para participar de um evento educacional e ainda conhecer a cidade. Você pode também tornar-se o correspondente internacional do NET Educação durante o tempo em que estiver por lá.
Será inesquecível! Para participar basta preencher o formulário escrevendo um texto de até 2.500 caracteres (uma folha A4) que relate uma história que tenha vivido relacionada à educação. 
Seleção
Veja como será realizada a seleção dos relatos: veja aqui
Regulamento
Leia atentamente o regulamento: veja aqui
Datas
• 16/09/2013 – Abertura das participações
• 21/11/2013 – Encerramento
• 27/11/2013 – Divulgação dos 10 finalistas
• 03/12/2013 – Resultado final – vencedores
Você pode ser o correspondente do NET Educação
• O ganhador do primeiro lugar poderá cobrir o evento XXI Colóquio – O papel da Educação no Desenvolvimento e trazer informações culturais da sua experiência na viagem a Portugal.
• Serão 15 dias (de 19 de janeiro a dia 2 de fevereiro) de muitas atividades e um roteiro cultural indispensável para conhecer Portugal.
• O correspondente terá a tarefa de reportar as experiências vividas durante a viagem e publicar no portal NET Educação textos e fotos que expressem as aprendizagens adquiridas.
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quinta-feira, agosto 08, 2013

(RE)VISITANDO A POESIA CAMONIANA: INTERTEXTUALIZANDO

(RE)VISITANDO A POESIA CAMONIANA: INTERTEXTUALIZANDO

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície inata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
(Carlos Drummond de Andrade)[1]


A poesia sempre foi a “menina dos meus olhos”. Lembro-me de passar horas, desde ainda criança, lendo poemas. Uma de minhas tias (tia Maria), professora de primeira a quarta-série  (que hoje chamamos de PEB-I), me presenteou com vários livros de poemas, dentre eles, Vinicius de Moraes e Cecília Meireles. Lia muito. Às vezes eu os lia em voz alta, no entanto, eu gostava mais quando minha tia lia para mim – hoje sei que era pelas características próprias do gênero: pela entonação, pela impostação da voz, pelo ritmo – chegava a decorá-los. Outras vezes, não entendia o que o poema queria dizer – isso ocorreu quando ganhei um livro de poemas de Augusto dos Anjos -, as ideias pareciam-me confusas (sentia-o, apenas), mas, segundo relatos posteriores da minha tia, isso, naquele momento, parecia não importar muito para mim. Importava sim, o fascínio que eu tinha pela construção dos poemas (a estrutura, as rimas etc.), pelos jogos de palavras (seleção e combinação), pela sonoridade (ritmo / musicalidade) etc. A minha paixão pela poesia/poemas fez com que eu guardasse em um caderno de capa dura de duzentas folhas, o qual eu intitulei de “Meu caderno de versos e poemas”, os meus favoritos.[2]
Incluo, portanto, dentro dos meus poetas favoritos (que não são poucos), Luís Vaz de Camões (1524 (?) -1580), poeta português do Classicismo/Renascimento e um dos maiores escritores da literatura universal, autor de vários textos literários pelos quais nutro grande admiração. Camões foi imortalizado por conta da obra Os Lusíadas, considerada a maior epopéia do Renascimento, a qual retrata os grandes feitos de Portugal no que tange à expansão marítima (as grandes navegações), em especial a viagem de Vasco da Gama. Porém, minha admiração por este autor pousa também e, mais especialmente, sobre a sua obra lírica - os sonetos camonianos -, que são os meus preferidos.
Cultivando o meu grande amor pela poesia, pude presenciar in loco a geração do final dos anos oitenta e decorrer dos anos noventa, embalada pelo rock nacional de bandas que conquistaram em especial o público jovem, porém, acabaram por atingir outras faixas etárias. A minha empatia por bandas como “Legião Urbana”, “Capital Inicial”, “Titãs”, “Paralamas do Sucesso”, dentre outras, perpassa por dois momentos: o primeiro, próprio da adolescência, da juventude, que é a necessidade de se rebelar (com ou sem motivo) - nesse caso a razão de toda a “rebeldia” era a luta contra a opressão e pela plena conquista da liberdade -, e por último, pelo meu incrustado romantismo vislumbrado na poesia contida nas letras das músicas de alguns poetas geniais, como Renato Russo[3] (ver biografia)[4], por exemplo.  Não é por acaso que sua voz passou a ser a voz de tantos jovens e, até hoje, ainda ecoa vigorosamente.
Antes da formação da banda Legião Urbana, Renato Russo fazia parte de uma outra banda, a Aborto Elétrico.
O primeiro álbum da banda Legião Urbana foi lançado em janeiro de 1985. Todas as letras são da autoria de Renato Russo e denotam, em sua maioria, aspectos da política, das drogas, do amor e do desamor. É possível perceber como característica dos versos de Renato Russo, uma relação intrínseca com a estética de antigos poetas e um tom de romantismo que os envolve e, ainda, o uso do discurso direto. Isso se confirma se pensarmos na música Eduardo e Mônica[5], a qual enfatiza, nas entrelinhas, que o amor é capaz de superar todas as diferenças, atrelando-se às características de poetas românticos: Quem um dia irá dizer / Que existe razão / Nas coisas feitas pelo coração?  / E quem irá dizer / Que não existe razão?”.
Mas, foi em novembro de 1989, com o lançamento do disco “As quatro estações” que não só eu, mas acredito que uma grande legião de admiradores do trabalho da banda Legião Urbana pode perceber o brilhantismo das suas composições, em especial, na música Monte Castelo, marcada por intertextualidades com a lírica de Camões e com muitas antíteses: “Amor é fogo que arde sem se ver. / É ferida que dói e não se sente. / É um contentamento descontente. / É dor que desatina sem doer.” e trechos bíblicos (I carta de São Paulo aos Coríntios): “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, (...) , e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria. (...) Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o Amor.”

 Monte Castelo[6]

Legião Urbana


Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal,
Não sente inveja ou se envaidece.

O amor é o fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria.

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É um não contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.

Estou acordado e todos dormem.
Todos dormem. Todos dormem.
Agora vejo em parte,
Mas então veremos face a face.

É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

Essa letra (e música) transformou-se em um hino para os jovens daquela época e, até hoje, é possível ver que a poesia de Renato Russo permanece viva. Dessa forma, associando-se o clássico soneto de Camões à letra e música de um rock popular da Legião Urbana, conferiu-se uma atualidade aos versos com base no tema abordado – o amor –, que é um sentimento universal e atemporal.
Sem dúvida, a estreita ligação entre Renato Russo (e a Legião Urbana) com o público se deve, em parte, aos mecanismos de interação: linguagem direta, vocabulário acessível ao seu público alvo, temas recorrentes ao universo dos jovens, como amor, sexo, drogas, festas e violência urbana, o que pode ser observado no trecho da canção "Será" (primeiro LP da banda Legião Urbana): "Tire suas mãos de mim / Eu não pertenço a você / Não é me dominando assim / Que você vai me entender"; ou, então, neste trecho da canção "Geração Coca-Cola" (tornou-se um hino entre os jovens): "Somos os filhos da revolução / Somos burgueses sem religião / Nós somos o futuro da nação / Geração Coca-Cola". A linguagem, os temas que abordava, o estilo musical, o rock e o jeito rebelde/ingênuo com que executava suas canções, faziam de Renato Russo um porta-voz da juventude dos anos 80/90, fato este comprovado pela alta vendagem dos LPs da banda, bem como pelo sucesso de público nos shows.
Aprecio muito a junção de uma obra canônica a uma popular[7]: o poema Fanatismo (de Florbela Espanca[8]), é cantado pelo cantor Fagner[9]: Minh' alma, de sonhar-te, anda perdida/ meus olhos andam cegos de te ver / Não és sequer a razão do meu viver /pois que tu és já toda minha vida. Arnaldo Antunes “declama” uma famosa passagem da obra O primo Basílio, de Eça de Queirós, na música Amor I love you, cantada na voz de Marisa Monte[10]: “E Luísa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!" (QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. 15ª edição, São Paulo: Ática, 1994, p. 134).
Certa vez, uma professora do curso de Letras, a “Cidinha” (Aparecida do Carmo Frigeri Berchior[11]), teceu um comentário simples, mas ao mesmo tempo muito profundo sobre a inserção da poesia em nossas vidas. Certamente não vou conseguir reproduzi-lo com exatidão, mas a sua fala, em outras palavras, mostrava que a poesia é inerente ao ser humano; ela está em toda a parte, inclusive dentro de nós e, talvez seja por isso que muitas pessoas não consigam percebê-la, não consigam notá-la – a proximidade “embaça” a visão. Para percebê-la, portanto, é preciso estar com todos os sentidos em alerta (de repente um perfume, um sabor, um toque, uma imagem... podem desencadear um sentimento que estava adormecido e nos transportar para uma outra época, um outro momento que, de certa forma, tenha marcado a nossa vida).
Hoje eu busco a poesia a todo o instante, em cada gesto, em cada olhar, em cada palavra, em cada sorriso (ou em cada lágrima), em cada cena. A poesia vive a me provocar e ela está sempre presente em minha vida. Posso (com)provar sua presença a me acompanhar:
Há algum tempo, na rodovia que liga Pitangueiras a Bebedouro, vinha sozinha dirigindo meu carro quando me deparei com uma queimada de cana – o fogo ia alto e a fumaça tomou conta da pista, fazendo com que todos tivessem que parar por motivos de segurança. Era um final de tarde, o sol estava se pondo e o vermelho deste se confundia com o vermelho do fogo – era um cenário de pura magia e pura poesia: o cheiro forte da cana queimando, o barulho do fogo na plantação, a visão escarlate da mistura de vermelhos – era tudo extremamente emocionante!
Quis naquele momento ter o dom de escrever um poema, tentar expressar com palavras algo que eu apenas senti. Certamente Camões ou outro poeta da mesma estirpe conseguisse facilmente essa proeza, eu, fiquei apenas com o registro visual e o sentimento daqueles momentos de pura poesia. Hoje posso assegurar que a minha professora estava certa: a poesia está em toda parte, inclusive dentro de nós.

 BIBLIOGRAFIA:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Procura da Poesia.  Disponível em: http://letras.terra.com.br/carlos-drummond-de-andrade/460651/. Acesso em 03/12/2011.

ESPANCA, Florbela. Fanatismo. Livro de Sóror (1923). Disponível em: http://www.revista.agulha.nom.br/flor1.html#fanatismo. Acesso em 03/12/2011.

FAGNER, Raimundo. Fanatismo (de Florbela Espanca). Vídeo disponível em: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=qIhme8AY8Dk. Acesso em 03/12/2011.

MONTE, Marisa. Amor I love you.  Disponível em (vídeo): http://www.youtube.com/watch?v=5TdTacizYdA&feature=search. Acesso em 03/12/2011.

QUEIRÓS, Eça de. O primo Basílio. 15ª edição, São Paulo: Ática, 1994, p. 134.
RUSSO, Renato. Biografia. Disponível em http://www.renatorusso.com.br.




[1] Vídeo disponível em http://www.youtube.com/watch?v=0unax_7VH64, “Procura da Poesia”, de Carlos Drummond de Andrade na voz do ator Paulo Autran.
[2] Eu ainda possuo este caderno. Encontra-se amarelado pelo tempo, sua capa já sofreu algumas intervenções com fita adesiva, mas eu o mantenho, como uma relíquia.
[3] Renato Manfredini Júnior, nome de batismo, é trocado por Renato Russo em homenagem a dois pensadores, o inglês Bertrand Russell e o filósofo Jean-Jacques Rousseau, bem como ao pintor primitivista Henri Rousseau.
[4] Site Oficial de Renato Russo: Disponível em http://www.renatorusso.com.br.
[5] Trabalhei esta letra com os meus alunos de 6ª série/7º ano (Caderno do Professor/Caderno do Aluno – Currículo do Estado de São Paulo). Fizemos a leitura do texto, discutimos a temática (oralidade), ouvimos a música, assistimos ao videoclipe e realizamos as atividades propostas. Houve um encantamento generalizado por parte dos alunos.
[7] Entenda-se “popular” apenas como oposição ao que se considera cânone. Não há, portanto, nenhuma menção pejorativa ao termo.
[8] ESPANCA, Florbela. Fanatismo. Livro de Sóror (1923). Disponível em: http://www.revista.agulha.nom.br/flor1.html#fanatismo.
[9] FAGNER, Raimundo. Fanatismo (de Florbela Espanca). Vídeo disponível em: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=qIhme8AY8Dk
[10] MONTE, Marisa; ANTUNES, Arnaldo. Amor I love you.  Disponível em (vídeo): http://www.youtube.com/watch?v=5TdTacizYdA&feature=search.
[11] Currículo Lattes. Disponível em: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=W8111817. Acesso em 03/12/2011.
______________
Texto apresentado como "Questão Discursiva" no Curso de Língua Portuguesa - Redefor/UNICAMP.

sábado, julho 20, 2013

A ESPERA!..

Imagem: Codinome Beija-Flor

Silvana M. Moreli

As unhas estão cheias de terra das muitas tentativas de vencer o abismo
Das muitas vezes que chegando ao topo, se é lançado de volta para o fundo
Aquele que nunca chega: o fundo da base do mundo
Dos ressentimentos - vis sentimentos, de amargura e dor
Rasgo o peito com o ímpeto de um animal
Indócil, valente, sagaz, destemido, irracional
Quero minha vida de volta, quero meu corpo e minha alma
Há em mim a angústia do retorno, a espera da calma
A insanidade miserável de quem já foi, virou passado
Não há aurora na escuridão calada do meu coração
Há uma dor que teima em doer e uma lágrima que teima em cair
Uma voz rouca escondida por trás de um grito abafado
Não quero migalhas, restos, pedaços, quero tudo por inteiro
Escancara os meus defeitos (que não são poucos),
Jogue-os junto a mim, no chão imundo da minha consciência
Atire-os contra mim, um a um como pedras: apedreje-me!
Mas não lance sobre mim uma punição eterna:
A de não mais sentir a sua presença,
A de não sentir seu perfume passeando pela minha lembrança
A morte poderia até ser um alívio a este corpo sedento de descanso,
Caso ele já não estivesse morto
Morri tão logo suas mãos soltaram as minhas
Morri tão logo seus lábios recusaram-se a dizer o adeus que seus olhos já diziam
Volto-me para dentro de mim. Silencio
Vejo, à distância, a poeira levantada no caminho...
Vai dissipando lentamente junto aos meus pensamentos...
Reminiscências de uma vida – esta que parece outra
Vejo sumindo ao longe, a imagem, o pensamento,
O sonho, a poesia, a poeira, a esperança, o amor...
Vejo, à distância, o peso da mentira,
A omissão que virou pecado,
O pecado que virou doença
A doença que virou saudade
A saudade que virou culpa
A culpa que virou espera... 

quarta-feira, julho 17, 2013

É TUDO TÃO COMPLICADO!

Imagem: Revista Fantástica
 Pedro Bandeira

Por que tudo neste mundo
É feito pra complicar?
Por que é que a sobremesa
Não vem antes do jantar?

Por que o recreio é tão curto
E a aula tão comprida?
Por que é que todos querem
Complicar a minha vida?

A razão de tudo isso
Acho que eu já descobri:
Todo o mundo se aproveita
Porque ainda não cresci.

Mas esperem só um pouco,
Até que eu tenha crescido,
Porque eu vou fazer o mundo
Muito, muito divertido!

ORAÇÃO DA CRIANÇA

Imagem: Comunidade Anunciame.com

Bárbara V. de Carvalho

Senhor! Fazei que toda criança
Quer seja loira ou pretinha,
Da cidade ou lá do morro,
Amarela ou moreninha...
Quer seja das avenidas,
Dos sítios,
Seja onde for...
Tenha pão, tenha brinquedo,
Tenha agasalho e saúde
Tenha carinho e amor.

Senhor! Fazei também que a criança
Não conheça nenhum mal,
Que todas sejam felizes,
Que a todas Papai Noel
Visite pelo Natal...
Fazei também, eu vos peço,
Que sejam todas iguais...
Vós sabeis que é muito fácil,
Pois todas querem somente
Ser criança... nada mais.

Fazei, Senhor, que as crianças,
De mãos dadas, cantem todas
A “Ciranda Fraternal”
Da Confiança e da Paz!

DESFILE DE MODA ENTRE OS BICHOS



Walter N. Freitas – “Simplicidade” – Edicel.

Vai começar o desfile
Gritava Dona Raposa,
Cada bicho se apresente
Acompanhado da esposa.

Quando a festa começou,
Houve um grande rebuliço,
Pois nenhum bicho queria
Aproximar-se do Ouriço.

A Onça surgiu radiante
Com um bolero vermelho
E uma saia azul-marinho
Bem acima do joelho.

Houve grande falatório,
Muito bicho desmaiou
Porque a Cegonha vestia
Um curtíssimo maiô.

Os bichos se entreolharam,
Foi mesmo um “Deus nos acuda”,
Pois não é que a Saracura
Se apresentou de “bermuda”!

Segurando o par de luvas
E um finíssimo casaco,
Apareceu Dona Sapa
De vestido “moda saco”.

O Porco ficou vaidoso,
Porém um tanto enciumado,
Quando viu a Dona Porca
De vestido decotado.

A zebra, muito invejosa,
Quase que ficou maluca,
Quando viu a Dona Cabra
Desfilando de peruca.

Com as unhas esmaltadas
E vestido minissaia,
Entre palmas e sorrisos,
Desfilou a Papagaia.

Sempre jovem, sempre alegre,
A senhora do Elefante
Apertou bem a cintura
Para ficar elegante.

A Cutia desmaiou
Nos braços do Jacaré,
Quando Dona Caranguejo
Desfilou de marcha a ré.

O macaco estava bravo
Com a falta de bom-tom,
Não é que Dona Macaca
Passara muito batom!

Quando a Gambá desfilou
Com seu vestido de miss,
O Bode saiu correndo
E o Boi tampou o nariz.

A Foca fez traje próprio
Para esconder a gordura
E afirmava com orgulho
_ Eu só uso alta cintura!

Razão teve a Ovelhinha
Ao arrumar muito “fã”,
Estava mesmo bonito
O seu casaco de lã.

A mula, muito esquecida,
Vejam só que distração:
Deixou seu vestido em casa,
Surgiu de combinação.

Para encerrar o desfile,
Apresentou-se a abelhinha
Com o avental de trabalho,
Única roupa que tinha.

Depois de grande parada,
Aguardou-se a decisão:
Seria ouvida a palavra
Decisiva do Leão:

Por ser muito laboriosa
_ “a justiça me aconselha _
Confiro o primeiro prêmio
À senhora Dona Abelha”.

Foi assim que a bicharada
Deixou de lado a grandeza
E aprendeu que no trabalho

Está a suprema beleza.

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